Estudos

sábado, 26 de novembro de 2011

Detalhes da história do pequeno gigante viçosense


 
 A trajetória e a vida
do grande maestro de Viçosa, 
Adson Bicalho


Se você, meu amigo, por algum desvio do destino não conheceu Adson Rodrigues Bicalho, eu lhe aconselho: pense na música popular cadenciada pelo primor inconfundível de um mestre. Aquela talvez nunca ouvida, mas palpitante misteriosamente em seu peito. Para nosso consolo, assim será o encontro com o ex-violinista e maestro, mais brilhante estrela na constelação musical de Viçosa.
O indefectível violino repousa, sereno, sob a tutela do Museu Histórico da Universidade Federal de Viçosa. Não há uma placa ou mesmo lembrete que indique quais dedinhos mágicos lhe fizeram carícias, e a ausência de uma das cordas sugere um desleixo incompatível com a elegância de seu eterno enamorado.
Adson cuidou do violino com o apreço digno à dama dos sonhos que nunca tivera, por preferência. Preferira o violino. O esmero, na verdade, fora para que seu instrumento querido não experimentasse o amargo gosto da solidão, ou desuso. E daí tocava-o, e muito! Serestas, bailes de gala, casamentos, em apresentações Brasil à fora, em casa, na intimidade a dois.
 
A irmã Maria Pompeia: saudade e alegria









 "A música era a vida dele. Era sua predileção,
a razão de viver.
Tocando ele se satisfazia verdadeiramente."
                                         
Adson nasceu a 10 de novembro de 1917, em Viçosa. Mais um fruto musical da linhagem dos Rodrigues, músicos consagrados à época, cuja orquestra formada de familiares fazia enorme sucesso. Sua mãe, Adalgisa Rodrigues Bicalho, lecionava aulas de violino e piano e ensinara os elementos iniciais ao seu primogênito. Luzieta, Léa, Pompéia, José e Adezílio vieram em seguida. Estes cinco irmãos se tornaram responsabilidade de Adson com o falecimento precoce do pai, o dentista Adezílio dos Santos Bicalho, aos 44 anos.
Diante da perda irreparável, Adson vendia salgadinhos na estação ferroviária para auxiliar na renda da casa. Mas não só por isso: gostava de trabalhar, como ficou provado nas experiências bem-sucedidas com a lotérica A Predileta, a Chá Elite e a loja de móveis A Esposição Viçosense. O labor diário, contudo, não arrancaria de Adson o encanto deste momento sublime da vida, a juventude. E foi nesse periodo que uma deficiênca incidira sobre seu crescimento regular. Assim, o gigante das notas teve de se contentar com apenas 1,32m de altura durante a vida.
Bancário aposentado e eterno músico, o ex-companheiro Ed Geraldo Resende de Carvalho não titubeia ao pontuar a respeito de Adson: “personalidade marcante, sério para negócios, moleque quanto precisava, amigo dos amigos.” Segundo Ed Carvalho, o Sexteto Melodia tocava samba, valsa, bolero e samba-canção com ares de sentimentalismo. Durou de 1952 a 1968, quando se transformou em Bossa Seis, o que alterou substancialmente o teor das músicas. "No Bossa Seis essas músicas de 'fossa' foram esquecidas. Nós reestilizamos: pegamos mais essa música jovem também". Ed fala da Jovem Guarda, o fenômeno musical que tomou conta do país nos anos 60 e 70. Assim, Roberto Carlos e Erasmo Carlos eram presenças certas no repertório.
Antes de alcançar definitivamente as orquestras celestes, Adson percorreu o patamar superior das composições angelicais. Inspirações oferecidas pelo amigo violino, num flerte tentador. Valsas, boleros, marchas... Em cada uma, a peculiaridade de tom especial; no conjunto da obra, versos singelos carregados de temas comuns a poetas e amantes da vida: alegria e amor. Vejamos uma de suas composições, o bolero Alma de Violão:........................................................................................................
Em noite estrelada


Ao som da serenata                                                          Ardente de desejo
Ao ver-te, minha querida                                                  Seresta o trovador
A lua enternecida                                                              Na ânsia de beijos
Banhava-te em prata                                                        Óh, alma de violão cantor


Zé Boia e o filho Adson: homenagem merecida
Com a memória repleta de experiências inesquecíveis ao lado de Adson, o músico aposentado José do Espírito Santo Sant’anna fala com comoção do companheiro perpétuo da Seresta do Zé Bóia:.. “Meu compadre, meu amigo, tenho até um filho com o nome dele, em sua homenagem...” Zé Bóia é a pessoa que melhor conheceu nosso pequeno maestro. Foram anos de amizade, e inúmeros shows.
Aos companheiros de música resta a saudade e aos admiradores, a figura boníssima do homenzinho que tocava para satisfazer a alma sedenta de alegria.  A família pediu discrição a respeito de seu falecimento. Santa sabedoria familiar.  Afinal, quem ousa dizer que Adson morreu, desconhece a delicadeza de suas composições, a peculiaridade com que se unia ao violino e o coração gigante escondido por detrás de aparente pequenez.




2 comentários:

  1. belo blog, Iago.
    Continue, não pare, mesmo que chova canivete. depois da tempestade, estará longe p curtir o céu azul!

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  2. Adorei o Blog. Bem feito e trazendo-me caras recordações do Adson e demais músicos. Infelizmente não pude cobrar a promessa ao Ed de cantar a Ave Maria, acompanhando o Adson no violino, na cerimônia do meu casamento porque me mudei para o Rio e só casei no civil, mas sua voz, juntamente com as notas do violino do grande Adson, se perpetuarão na minha memória. Ed, receba o meu abraço carinhoso, deixado com a sua esposa quando estive aí em Viçosa no Carnaval desse ano.

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